Trabalho de Antropologia

Junho 26, 2008

Índice:

 

Índice: 1

Introdução: 3

Localização e Caracterização Geográfica: 4

Caracterização da Capela: 5

Lenda do Senhor da Pedra: 6

Outras lendas associadas ao local onde está erguida a capela: 6

As romarias de outros Tempos. 7

A romaria dos tempos de Hoje. 9

A Devoção do Romeiro. 10

Concretização do projecto do arraial do Senhor da Pedra. 10

Outras áreas em que o Senhor da Pedra foi protagonista.. 11

O Senhor da Pedra no Cancioneiro Popular. 12

Conclusão: 13

Anexos: 14

Anexos Fotográficos: 14

Fig. 1 – Capela do Senhor da Pedra na praia de Miramar 14

Fig. 2 – Alameda do Senhor da Pedra. 14

Fig. 3 – Capela do Senhor da Pedra batida pelo mar 15

Fig. 4 – Capela do Senhor da Pedra (visão arquitectónica global) 15

Fig. 4.1 – Pormenores arquitectónicos (Data de edificação) 16

Fig. 4.2 – Pormenores arquitectónicos (Azulejos da frontaria) 16

Fig. 5 – Interior da Capela (retábulo principal – Senhor da Pedra) 17

Fig. 6 – Rusga ou grupo romeiro. 18

Fig. 7 – Procissão de devotos à porta da capela. 18

Fig. 8 – Pegada do Boi Bento, capela do Senhor da Pedra, em Miramar 19

Fig. 9 – Paragem para piquenique. 19

Fig. 10 – Danças de roda nos intervalos de descanso. 20

Fig. 11 – Multidão no recinto da festa. 20

Fig. 12 – Barraca feirante actual 21

Fig. 13 – Romeiros (excursionistas) modernos. 21

Fig. 14 – Merendeiros actuais. 22

Fig. 15 – Rusga antiga. 22

Fig. 16 – Rusga actual 22

Fig. 17 – Quadros em agradecimento por ex-votos. 23

Fig. 18 e 19 – Artesanato e cerâmica. 23

Anexo do Trabalho de Campo: 24

Anexo Entrevista: 24

Anexo Fotográfico da observação de campo: 26

Bibliografia: 27

 

 


Introdução:

No âmbito da disciplina de Antropologia Cultural, o nosso grupo decidiu estudar e analisar a Romaria do Senhor da Pedra, em Gaia e os vários aspectos que com ela se relacionam.

Sendo a disciplina de Antropologia Cultural uma disciplina que tenta compreender determinados acontecimentos sociais e culturais no sentido do tempo e do espaço, no decorrer do nosso trabalho vamos tentar fazer referência à localização e situação geográfica do Sítio do Senhor da Pedra e às lendas a ele associadas; as romarias de outrora serão o nosso ponto de partida, para tentar compreender as mudanças que as mesmas sofreram com a mutação da sociedade, deixando antever o futuro a que estas estão destinadas; bem como a devoção dos romeiros e as razões que os levam a esse lugar (considerado por eles como lugar sagrado), a concretização do projecto do arraial do Senhor da Pedra, juntamente com o impacto que este teve e tem no quotidiano da população local. O Senhor da Pedra, além de presente no cancioneiro popular, é também protagonista noutras áreas, como a literatura, a pintura, o cinema, etc.

Desejamos, finalmente, que com este trabalho consigamos corresponder aos objectivos a que nos propusemos, sendo que teremos, para além do apoio das fontes literárias, um trabalho de terreno que nos auxiliará a tentar ser o mais fiel possível na descrição das romarias.


Localização e Caracterização Geográfica:

 

O sítio do Senhor da Pedra localiza-se nos terrenos arenosos entre a Praia do Senhor da Pedra e a Praia de Miramar, (fig. 1) junto à costa atlântica, na freguesia de Gulpilhares, fazendo já limite com a freguesia de Arcozelo. A festa ocorre na Alameda ou Largo do Senhor da Pedra, cuja capela lhe fica sobranceira (fig. 2).

Ambas as freguesias constituem parte da cidade e município de Vila Nova de Gaia, que se inclui no Distrito do Porto e na Área Metropolitana do Porto.

Como já foi dito, situa-se junto ao mar, em terras de cota baixa e compostas por areais extensos e dunas. É famosa a praia não só pela romaria que se faz ao orago da capela, mas também devido à qualidade e fama de que goza nas áreas envolventes.

Este local foi visto, durante anos, como uma fronteira natural, quer entre as comunidades humanas ali estabelecidas perto, quer entre o espaço sagrado e o profano. Assim, é um espaço de divisória, não só natural ou geográfico, mas também humano e mítico.

O rochedo sobre o qual está erigida a capela chama-se Pedra da Assureira, o qual é objecto de muitas especulações, pois devido à sua localização sobranceira ao mar, é constantemente batida pela rebentação e em dias de tempestade ou borrasca, é um milagre que a pedra não tenha até agora desabado ou, pelo menos, desgastado (fig. 3).

 

 

 

 

 

 


Caracterização da Capela:

 

A capela do senhor da Pedra está assente sobre um rochedo localizado junto ao mar, numa cota situada entre os seis e os sete metros acima do nível médio das águas do mar.

É um pequeno templo barroco, construído em granito, de forma hexagonal, com um corpo adossado que serve de sacristia (fig. 4). Tem uma escadaria, que culmina num pequeno alpendre, de construção recente, sob a porta principal. Esta é encimada por uma rosácea, ladeada por dois painéis de azulejos com inscrições relativas à antiguidade da freguesia e ao culto cristão (fig. 4.1 e 4.2). A capela é rematada, por um conjunto de pináculos sobre a cornija, por uma cruz e por um pequeno campanário artisticamente trabalhado. Cada parede lateral, de alvenaria ordinária, rebocada e pintada de branco, mede cerca de 10 metros de largura (fig. 4). A cúpula divide-se em seis gomos simples e está coberta de telha revestida a cimento e pintada de branco (fig. 4). Todo o edifício é emoldurado por uma cornija de friso saliente (fig. 4).

No interior da capela, pavimentado a granito, encontra-se um coro alto acessível através de uma escadaria espiralada, e, na sua continuidade, um púlpito simples, de madeira, de grande beleza. Destacam-se três retábulos em talha policromada, tentando imitar o mármore, talha essa que testemunha influências do estilo Rococó. Atrás do altar, destaca-se a majestosa imagem de Cristo Crucificado, o Senhor da Pedra, ladeada por dois pares de colunas compósitas; a imagem enquadra-se numa representação pictórica de Jerusalém. (fig. 5)

 

 

 

 


Lenda do Senhor da Pedra:

 

A lenda sobre este santo não está muito bem especificada em nenhum documento ou mesmo conto/história popular, quer seja daquela zona ou das envolventes. Apesar de tudo, existe um registo mais ou menos concordante na maior parte dos relatos.

O rochedo era, desde tempos antigos, um local de devoção pagã. Existiria, em torno desta pedra, um antigo culto naturalista, datado da Proto-História, mais sensivelmente na idade neolítica, cujas divindades eram elementos naturais. Existem provas históricas de que já no séc. IV a.C. teria existido ali um pequeno templo dedicado aos deuses fenícios Thamuze e Adónis, derivado dos contactos mercantis que se estabeleciam naquela altura com este povo.

Em tempos idos, não se sabem bem ao certo, um santo teria ido ali, na sua peregrinação por aquelas terras, e teria feito um milagre, dando assim a conhecer às gentes daquele lugar o Cristianismo. Mas como não tinha nenhuma imagem que lhes ilustrasse Deus, rogou ao Senhor que lhe enviasse uma imagem Sua para que os habitantes acreditassem. E um dia pousou sobre aquela pedra, onde o santo pregava e fizera o milagre, uma imagem de Cristo crucificado que teria ido ali ter vinda do mar, depois de uma noite de temporal e nevoeiro.

Outro relato relaciona-se com uma história acerca de um capitão de um navio, que tendo este naufragado naquelas costas, o dito capitão foi resgatado da fúria do mar de forma milagrosa pelo Senhor do Crucifixo da Pedra, agarrando-se à rocha onde este estava cravado. Em sinal de gratidão para com o santo, ergueu ali a capela em honra do santo, que ainda existe e que foi depois remodelada.

 

Outras lendas associadas ao local onde está erguida a capela:

 

Segundo consta, nas traseiras da capela está cravada a marca de uma ferradura na rocha, com explicações diversas para o facto:

·           Foi deixada por um burrito, no qual seguia montada a Virgem, que por ali passou num dia de nevoeiro, a caminho de Santiago de Compostela, e que ali deixou uma marca para que os fiéis locais a continuassem a venerar.

·           Foi deixada pelo cavalo de D. Sebastião, que ali aportou numa manhã de nevoeiro, e cujo cavalo se firmou nas patas devido ao forte temporal que se fez sentir nesse momento.

·           Por último, e esta é a lenda mais divulgada e aceite como a potencialmente verdadeira, representa a marca da pegada de um Boi Bento, que à semelhança do capitão naufragado, seguia num barquito de transporte, que foi apanhado pelo mau tempo ali junto à costa, e que se salvou miraculosamente, saltando para cima do rochedo onde está assente a capela.


As romarias de outros Tempos

 

Não é certa a data em que se terão iniciado as peregrinações (às festas em honra) ao Senhor da Pedra, embora seja de crer que estas estejam associadas à construção da capela e ao culto posterior em torno desse mesmo Santo.

Como na maioria das tradições das romarias portuguesas, a Romaria do Senhor da Pedra, terá tido início como sendo uma festa popular, de cariz rural, local de adoração à divindade e de ponto de encontro de populações que aproveitavam a ocasião para comercializar os seus produtos, “fazer alianças e casamentos, trocar noticias e regular divergências” (cit. in Guedes, 2000). Enfim, a romaria estabelecia, e estabelece, a fuga ao dia-a-dia e à rotina. Devido a esse factor, a coexistência entre o sagrado e o profano, entre o cristianismo e um certo “paganismo” é um aspecto comum e habitual nas romarias tradicionais portuguesas. No que respeita à prática religiosa, é demasiado puritana e intransigente, aspecto considerado chocante para determinadas mentalidades. A manutenção de todas as práticas actuais não é mais do que a adaptação de práticas anteriores, sendo que durante a cristianização das populações castrejas romanizadas, as divindades pagãs foram substituídas pelo homónimo cristão correspondente.

Com um historial de peso, as romarias ao Senhor da Pedra foram, e ainda o são, uma das mais importantes do concelho de Vila Nova de Gaia e, também, da província do Douro Litoral. Vários foram os escritores e pessoas ligadas às letras que deixaram o seu legado de reconhecimento desta festa para a posteridade, como por exemplo, Camilo Castelo Branco (1825-1890), que aquando da sua passagem por terras do Concelho, num escrito intitulado “Sete de Junho de 1849”, faz a seguinte narração – “Faz hoje oito anos: dia da romagem do Senhor da Pedra, ao sul do Porto duas léguas, na costa de Espinho. (…) Sahimos para a romaria (…). Chasqueava-mos os carroções, tirados por parelhas de gemebundos bois, (…) [desta forma] aproveitamos o ridículo de tudo, e até do sério tirávamos o sal que a nossa alegre imaginação lhe emprestava” (Castelo Branco, 1849, cit. in Guedes, 2000, p.54 e 55). Para além de Castelo Branco, outros foram os que escreveram sobre a Romaria ao Senhor da Pedra, como foi o caso de Manuel Laranjeira (1877-1912), escritor, ensaísta, crítico de arte e notável médico.

No local, para onde afluíam grandes aglomerados de romeiros, das mais variadas condições sociais, o sítio do Senhor da Pedra tornava-se num cenário, segundo a imprensa cultural da altura (início de novecentos), “de um espectáculo comparado aos ritos orgásticos da mitologia greco-latina”, (cit. in Guedes, 2000).

Nas primeiras décadas do século XX, elevado número de romeiros formava-se em grupos de raparigas e rapazes que faziam a peregrinação a pé, e que, em ambiente de alegria e boa disposição, tocavam vários instrumentos, como viola, bombos, etc., e cantarolavam cantigas em honra do santo (fig.6). Outros, talvez mais abastados, seguiam em carroças de bois e/ou outros veículos de tracção animal usados na época. Ainda havia aqueles que chegavam de comboio, aportando na estação de Miramar, visto que no período da romaria eram organizados comboios especiais devido à forte afluência de pessoas ao local.

Após a chegada ao local, já à muito ansiada, dirigiam-se à capela para pedirem a bênção ao Senhor da Pedra, ou cumprirem promessas, sinais de agradecimento por milagres por Ele realizados (fig. 7). De seguida, era usual fazerem a visita à Pegada do Boi Bento (fig. 8).

Depois de concretizado o ritual, ou de terem completado as tarefas que os levaram ao local, era chegado o momento tão esperado da merenda, transportada pelas mulheres, à cabeça, numa “condeça”, uma cesta de vime, durante o trajecto até ao arraial. O convívio era realizado nos pinhais das redondezas onde almoçavam e confraternizavam com outros grupos. E para a sobremesa eram esperadas a filhós e a aletria (fig.9).

Findado o almoço, os romeiros entregavam-se às várias diversões. Grupos de rapazes e raparigas cantavam e dançavam, em danças de rodas (fig. 10). Muitos namoros tinham início nestes encontros festivos, ou seja, nestas actividades improvisadas. Por sua vez, os mais velhos dormitavam a sua sesta. Outros, já tomados pelo álcool, envolviam-se em conflitos verbais e, muitas das vezes, físicos, em que era necessário a intervenção policial. Aliás, durante a romaria, o arraial era movimentado por todo o tipo de marginais que aproveitavam qualquer desatenção dos romeiros para procederem a furtos, muitos ocorridos depois de terem causado distúrbios e verem assim o seu caminho facilitado à prática dos mesmos (fig. 11).

Ao final da tarde, petiscavam o que restava do almoço, e voltavam felizes para suas casas, cansados mas felizes com a promessa de regressarem para o ano seguinte.

Este foi um ritual que perdurou durante quase todo o século XX, de forma quase inalterada. Apesar de muitas das práticas se terem perdido, ainda sobrevivem alguns aspectos, embora com as alterações inerentes à própria história.

 

 

Fig. 1

A romaria dos tempos de Hoje

 

Nos dias de hoje, a romaria ao Senhor da Pedra continua a ser um acontecimento que interfere nas várias dimensões: religiosa, social e cultural. Foi e continua a ser um evento de grande importância, no concelho de Vila Nova de Gaia. No Domingo da Santíssima Trindade, acorrem milhares de pessoas ao arraial, e é aqui que reside a grande diferença em relação a tempos de séculos passados: hoje vêm, não com as características próprias dos romeiros, com o objectivo dos convívios tradicionais, mas sim por diversão ou curiosidade; para fazerem compras nas actuais bancas de artesanato e outras mercadorias comercializadas no arraial (fig.12).

No que toca à religiosidade do acontecimento, não se deram grandes alterações, na medida em que os peregrinos continuam a dirigir-se à capela do Senhor da Pedra. O mesmo não se verifica no que diz respeito ao aspecto profano da romaria, o qual se transformou, decorrente do desenvolvimento da história.

Motivo da evolução dos Tempos, a espontaneidade da romaria já não é o que era. Antes de cariz mais popular, hoje, os romeiros são a expressão de uma cultura mais suburbana, visto que, fruto dessa evolução, deslocam-se em automóveis, ou em excursões organizadas (fig. 13), retirando aqueles momentos de convívio que ocorriam espontaneamente no percurso da romaria. As novas atracções existentes no arraial também vieram substituir as tradicionais danças e cantares que aconteciam, onde a relação interpessoal era mais espontânea e natural. Outrora, a romaria era preenchida com feirantes que comercializavam artigos, essencialmente, de artesanato e produtos da terra (hortícolas e enchidos), actualmente, quase podemos comparar esse espaço ao de uma grande superfície comercial, onde se vende, desde os tradicionais tachos de barro até aos mais recentes modelos de lingerie erótica! (fig.12)

Para aqueles romeiros que desejam manter as adicionais práticas de outros tempos, quase se tornam impossíveis, visto que aquando a chegada da hora do almoço ou merendeiro ao ar livre, a paisagem de outrora não passa de uma imagem surrealista, devido à forte urbanização que se deu na periferia do arraial. O espaço que em tempos era ocupado por extensos pinhais, hoje, é ocupado por modernas moradias de luxo e blocos habitacionais de alta qualidade. Devido ao novo cenário paisagístico, os romeiros vêem-se obrigados a almoçar e a merendar na via pública local onde sentem uma forte perturbação face ao enorme movimento automobilístico que se dá no período da romaria (fig. 14).

Apesar das contrariedades dos tempos modernos, vários grupos continuam a organizar rusgas ao Senhor da Pedra. Porém, a espontaneidade destas rusgas perderam-se, porque passaram a ser reconstruções etnográficas, observadas por júris, nas quais devem obedecer a regras que remetem para a fidelidade à tradição, e não já para a naturalidade com que eram realizadas antigamente (fig. 15 e 16).

Sabendo que a evolução dos tempos tem coisas boas e coisas más, a romaria ao Senhor da Pedra continua a ser um ponto de encontro e de convívio entre populações. Por excelência, a romaria continua a ser a expressão da devoção popular ao Senhor da Pedra.


A Devoção do Romeiro

Para um romeiro devoto, a romaria representa uma peregrinação que exige algo em troca por parte do santo ou da divindade: a cura de uma doença ou outro tipo de pedido alcançável pela vontade divina. Materializada a graça concedida pelo santo, ou divindade, “a forma que o romeiro encontra para realizar o seu potlach com o divino vai, desde a mortificação do corpo, até às oferendas” (Varella, cit. in Guedes, 2000, p. 59) de ex-votos[1]. Uma prática que remonta à antiguidade, a qual demonstra a continuação de uma religiosidade popular de características pré-cristãs.

A sala de sessões da confraria do Senhor da pedra, mandada construir em cumprimento de um voto, contém duas pinturas votivas, datadas do ano de 1771, que têm como representação a cura milagrosa de uma criança e o seu respectivo agradecimento. (Fig. 17)

Presentemente, principalmente durante as festividades em honra ao Senhor da Pedra, enormes quantidades de romeiros continuam a ocorrer à capela, munidos dos seus ex-votos: esculturas de cera, ramos de cravos[2], objectos de artesanato, etc.

 

Concretização do projecto do arraial do Senhor da Pedra

Inserido num projecto municipal de reestruturação da orla costeira de Vila Nova de Gaia, o actual espaço do arraial do Senhor da Pedra sofreu grandes alterações dando um novo visual que deixa surpreso qualquer romeiro, que por qualquer razão deixou de se deslocar ao local por alguns anos.

Este espaço foi dotado de uma área natural de lazer, através de reimplante de pinheiros com estruturas desportivas e recreativas e à realização de eventos, nomeadamente, através de um espaço polidesportiva, de um parque infantil, de grandes estruturas de jogos de água e de um amplo espaço onde as pessoas possam circular livremente, em passeios domingueiros com os seus familiares ou amigos. Este espaço deixou de ter actividade exclusiva no período da Romaria do Senhor da Pedra, passando assim, a ser um espaço de lazer com vista a ser usufruído em qualquer altura do ano.

É evidente que a protecção e valorização de todo este património seria mais facilitado e eficaz se a classificação de bens patrimoniais fosse menos centralista e mais bem adaptada às realidades locais.

 

 

Fig. 6

Fig. 7

Fig. 8

 


Outras áreas em que o Senhor da Pedra foi protagonista

 

O protagonismo do Senhor da Pedra, no campo das artes, foi muito além da pintura, dos poemas populares e dos escritos literários.

Na área da iconografia, a imagem da capela do Senhor da Pedra, aliada à imagem paisagística do sítio, contribuiu para a criação de um vasto espólio iconográfico, desde pinturas a cartazes, incluindo gravuras, desenhos, fotografias, etc. (fig. 18).

A pintura em tela e em cerâmica também fazem parte da história do Senhor da Pedra, fazendo surgir pela mão de vários artistas, como são o quadro de Henrique P. C Leorne, datado de 1983, e a aguarela de Marinho Falcão, executada em 1992.

Quanto às peças em cerâmica (fig. 19), estas também com imagens alusivas ao Senhor da Pedra, na sua maioria em pratos e taças, são oferecidas, habitualmente, pela Junta de Freguesia, quer ao Rancho Regional quer à Confraria do Senhor da Pedra, pelos acontecimentos promovidos pelas instituições referidas, como concertos comemorativos, festivais folclóricos, rusgas ao Senhor da Pedra, entre outros eventos.

No campo da fotografia, os primeiros fotógrafos dividiram a sua actividade profissional em diferentes áreas, retrato e a reportagem.

Visto que, na região duriense, a Romaria do Senhor da Pedra era um acontecimento religioso e social de relativa importância, também foi alvo, desde os primórdios do século XX, de reportagens fotográficas com o objectivo de capturar toda a ambivalência do arraial, durante a romaria.

Como não poderia deixar de ser, o Senhor da Pedra, enquanto património e expressão cultural de um povo, a nova arte também teve o seu contributo, ao realizar, em 1912, o filme “ A Romaria do Senhor da Pedra”. Ainda nesse mesmo ano, outro acontecimento cinematográfico mostra o sentimento e vivacidade da romaria. E em anos posteriores novas obras cinematográficas foram produzidas demonstrando a importância destas festividades no contexto cultural nacional.


O Senhor da Pedra no Cancioneiro Popular

As canções em honra ao Senhor da pedra não poderiam ser esquecidas de maneira alguma. Foram os poetas e músicos populares que, em contexto de romaria, iam fazendo juros às suas capacidades artísticas, elaborando versos e quadros no seio das rusgas populares, noutros tempos espontânea, hoje objecto de uma cuidada organização.

 


Modinha ao desafio:

Ele: Boa tarde meus senhores
A todos vos venho saudar
Eu a mais a cantadeira
que luta vamos travar…

 

Ela: Já sei que és cantador
Que a tua cara mo diz
Foste cantar para o Inferno
E nem o Diabo te quis

 

Ele: Não te faças muito cara
Anda para  aqui cantadeira
Entra comigo a cantar
E não saias da minha beira…

 

Ela: Vou para o Senhor da Pedra
P’ra colher as camarinhas
É que o meu amor é de lá
E já as tem apanhadinhas

 

Ele: Meu rico Senhor da Pedra
Pelo caminho, pedras tem
Pois se não fosse por milagre
Já lá não ia ninguém

 

Ela: Meu rico Senhor da Pedra

Meu rico Senhor seja
Todo o ano me esqueceis
Só no dia é que me lembrais

 

Cantiga das Camari-nhas:

“Fostes ao Senhor da Pedra
Minha rica Mariquinhas…
Nem por isso me trouxestes
Um ramo de camarinhas.

 

Hei-de ir ao Senhor da Pedra
Para colher as camarinhas…
Mas, meu amor, é de lá
Já mas tinha apanhadinhas.


Fui ao mar às camarinhas
E cacei um camarão…

 

(coro)
Ai sim, camarinha, ai sim!
Ai sim, camarinha, ai não!
Ai sim, camarinha, ai sim!
 

 

Camarinha, ai sim! Camarinha, ai não!

 

(solo)
Logo na Primeira onda
Veio o meu amor à mão…”

 

Cantiga do Senhor da Pedra:

«Hei-de ir ao Senhor da Pedra

(Hei-de ir ao Senhor da Pedra)

‘Inda que me leve um mês

(‘Inda que leve um mês)

Só para ver os milagres
Que o Senhor da Pedra fez

Bendito Senhor da Pedra
Bendito sempre sejais

Não tenho nada de meu
Ó Senhor quanto me dais

(Ó Senhor quanto me dais).»


 


Conclusão:

Finalizando o nosso estudo e análise do fenómeno do Senhor da Pedra, em todas as suas dimensões, e das considerações acerca da sua importância como património, como memória e identidade das comunidades gulpilharense e gaiense, impõem-se agora, algumas reflexões.

Expressão da forma de viver a relação entre a humanidade e o divino, nas populações do Norte de Portugal, em geral, e nas populações do douro Litoral, em particular; o Sítio do Senhor da Pedra, com os seus elementos constitutivos e o seu significado, constitui um precioso património da nossa Antropologia Cultural, significativo da identidade colectiva de uma comunidade humana.

O presente trabalho obrigou-nos a um certo esforço, no sentido de abranger o maior número de aspectos relacionados com o Senhor da Pedra e tudo o que, à sua volta, ele faz mover. Esse esforço, aliado à inexistência, ou ao desconhecimento, de documentação importante e específica para o estudo do tema por nós escolhido, levou-nos a ter em conta outros aspectos temáticos que achamos oportuno referir no nosso trabalho, e que poderão ter condicionado o resultado final do trabalho, aprofundando determinados aspectos em detrimento de outros.

No entanto, este trabalho, se outro mérito não teve, conseguiu contestar dados tidos como correctos, suscitando novas perguntas, e procurou fazer uma abordagem a outros aspectos, relacionados com o tema, mais esquecidos ou menosprezados. O trabalho, que agora chega ao fim, constitui, por isso, uma boa base e uma ferramenta para outros interessados, que desejem debruçar-se, de uma forma mais profunda, sobre qualquer aspecto que se relacione com o fenómeno do Senhor da Pedra e sobre as romarias em honra do mesmo.

Os tempos mudam com os ventos, são os ventos da mudança a que a humanidade não é alheia. Tudo o que em tempos caracterizava as Romarias ao Senhor da Pedra, actualmente, não é mais do que simples memórias que a população gulpilharense pretende manter, e o futuro em relação às mesmas dependerá dos testemunhos que os mais tradicionalistas deixarão como testemunho às gerações vindouras.


Anexos:

Anexos Fotográficos:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fig. 2Alameda do Senhor da Pedra

 

Fig. 2 Alameda do Senhor da Pedra

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fig. 4 – Capela do Senhor da Pedra (visão arquitectónica global)

 

Fig. 4 Capela do Senhor da Pedra (pormenores arquitectónicos)

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                         

Fig. 4.2 – Pormenores arquitectónicos (Azulejos da frontaria)

 

Fig. 4.2 Pormenores arquitectónicos (Painéis de azulejos na frontaria)

 




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anexo do Trabalho de Campo:

Anexo Entrevista:

No dia 31 de Maio de 2008,na elaboração deste trabalho terreno, elaboramos uma entrevista ao Sr. Valentim que colabora nas entidades que estão ligadas quer à romaria, quer à junta de freguesia bem como a outras actividades ligadas à igreja católica. O objectivo desta entrevista foi tentar perceber de que forma é vivida a romaria nos tempos de hoje e quais as perspectivas futuras da sua continuidade.

 

Entrevista

Capela do Senhor da Pedra e Romaria

 

1-Qual a data da construção da capela?

Segundo referência do livro, “Santa Maria de Gulpilhares Notas Monográficas”, a capela foi erigida no ano de 1744, com as esmolas dos Fiéis de Deus. No entanto, existe uma data que se diz presumível de edificação, que é 1686 e que é a data da oferta da capela pelo capitão salvo no mar.

 

2-Quais as características da romaria que se realiza em honra do Senhor da Pedra?

A Romaria realiza-se no Domingo da Santíssima Trindade, a terça-feira é o dia em que a procissão se realiza. A terça-feira era o dia de excelência dos lavradores porque no Domingo as pessoas que apareciam na Romaria eram aquelas que trabalhavam nos serviços e por isso, os lavradores e pescadores tinham a possibilidade de disponibilizar o seu tempo. Estes lavradores levavam o merendeiro e iam ver a procissão. Daí também o aparecimento das rusgas, as pessoas vinha da margem direita do rio Douro, Gondomar…. As pessoas iam-se agrupando e durante a caminhada cantavam e divertiam-se de forma a sentirem que o tempo passava mais rapidamente e ao longo do percurso iam-se juntando cada vez mais pessoas e quando chegavam ao local era uma rusga, ou seja, um grande agrupamento de gente.

A Romaria do Senhor da Pedra é a mais cantada da zona do Porto.

As pessoas já por tradição levavam alguns instrumentos como o cavaquinho, viola, os homens levavam o chifre do boi com vinho, as mulheres levavam a condensa que era uma cesta de vime com a merenda.

Esta chegada das rusgas era espectacular porque se juntavam todos no pinhal da alameda, e lá existiam as camarinhas, que são umas bolinhas (como pérolas) suculentas e saborosas.

Hoje já não temos essas camarinhas, mas no dia da festa conseguimos sempre para colocar num arranjo com cravos, vamos busca-las aos pinhais de Estarreja e Cortegaça.

As camarinhas são assim uma tradição da festa e à volta destas surgiram as cantigas que falavam das camarinhas.

Os cantares tradicionais surgiram com as rusgas e o Rancho Folclórico de Gulpilhares preservam e mantêm esses cânticos. E, no festival anual há o concurso à quadra do Sr da Pedra, portanto, mantém-se sempre vivo esse momento.

Na romaria antigamente, aquilo que se fazia como animação era dançar, cantar e jogos tradicionais. Depois apareceu o comboio e as coisas foram-se alterando, as pessoas já não vinham a pé, ou seja, a maior parte vinha de comboio.

O comércio também se começou a instalar, hoje é mais uma feira. Antigamente, eram as barracas dos comes e bebes e a venda de louça tradicional. Os barros e os santinhos de barro com que se faziam as cascatas do S. João, o cordeirinho, a banda de música, o Santo António, o S. Pedro entre outros, para as crianças existiam os brinquedos de madeira e tudo isto ainda se encontra lá.

Hoje a Romaria está descaracterizada com as barracas de venda, vendem de tudo.

Há 2 anos veio até à Romaria uma rusga de Lever a pé, o que já não acontece nos dias de hoje, com a excepção do Lordelo do Douro que atravessa a Afurada, o rio Douro de barco e vêm até aqui a pé, por isso é sempre a última a chegar, ainda este ano aconteceu. A senhora incentivadora dessa rusga tem 96 anos, claro que não vem a pé há três anos mas faz questão de estar presente e fica sentada a ver a chegada das rusgas.

 

3- Como perspectiva a continuidade dos projectos, ou seja, existem pessoas interessadas em dar continuidade a algo com tantos anos de existência?

Eu vejo a juventude aqui com alegria, porque estes jovens têm motivos de vida.

Tenho esperança que as coisas vão regredir no bom sentido, isto é, vamos voltar às tradições. Há menos gente interessada mas com mais qualidade.

Há sempre jovens que se vão interessando e integrando nas actividades e que assim conseguem chamar outros com eles.

Acredito que os jovens vão assumir as responsabilidades e dar continuidade dos projectos não deixando acabar o que de tão bonito a terra tem.

 


Anexo Fotográfico da observação de campo:

No dia 18, Domingo, dia da Romaria, encontro das rusgas e a 20 de Maio de 2008, terça-feira, dia da procissão, participamos tendo oportunidade de observar assim como de fotografar alguns momentos vividos nesses dias, ilustrando a realidade dos acontecimentos mais marcantes da festa em honra ao Senhor da Pedra, dando-nos possibilidade de fazer comparação com a romaria do passado.

 


Bibliografia:

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Pode ser definido como uma imagem ou um objecto que se deposita num templo, em cumprimento de um voto.

[2] Os ramos de cravos estão relacionados com a milagrosa cura da doença dos cravos, pequenos tumores cutâneos, que, segundo a crença popular, só o Senhor da Pedra pode curar.

Fig. 1

Fig. 1

Estado do Tempo

Abril 18, 2008

Céu pouco nublado ou limpo, apresentando-se muito nublado no litoral oeste até ao final da manhã. Vento em geral fraco (inferior a 20 Km/h) de noroeste, soprando moderado (20 a 35 Km/h) no litoral oeste a partir da tarde. Pequena subida da temperatura máxima nas regiões do interior. Neblina ou nevoeiro matinal. Quanto ao estado do mar, na costa ocidental haverá ondas de noroeste com dois metros, enquanto que a costa sul terá ondas de sudoeste inferiores a um metro. Temperatura da água do mar: costa ocidental, 15 a 17 graus; e costa sul, 18 graus.

Olá amigos!

Abril 18, 2008

Estamos felizes e contentes na aula de TIC com o prof Rui Teles.O prof acabou de nos chamar cromos…